Semana de 19 de março de 2018 (referência: leituras do domingo 25 de março)
Domingo de Ramos
Leituras: Is 50, 4-7; Salmo 21 (22); Filip 2, 6-11; Mc 14, 1 – 15,47
Nota: como o Evangelho é bastante longo, não transcreveremos as demais leituras do domingo.
“Abba, Pai, tudo Te é possível; afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça o que Eu quero,
mas o que Tu queres”.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos - Mc 14, 1 – 15,47
Faltavam dois dias para a festa da Páscoa e dos Ázimos e os príncipes dos sacerdotes e os escribas
procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à traição para Lhe darem a morte.
Mas diziam: “durante a festa, não, para que não haja algum tumulto entre o povo”.
Jesus encontrava-Se em Betânia, em casa de Simão o Leproso, e, estando à mesa, veio uma mulher que trazia um vaso de alabastro com perfume de nardo puro de alto preço. Partiu o vaso de alabastro e derramou-o sobre a cabeça de Jesus.
Alguns indignaram-se e diziam entre si: “para que foi esse desperdício de perfume? Podia vender-se por mais de duzentos denários e dar o dinheiro aos pobres”. E censuravam a mulher com aspereza.
Mas Jesus disse: “deixai-a. Porque estais a importuná-la? Ela fez uma boa ação para comigo. Na verdade, sempre tereis os pobres convosco e, quando quiserdes, podereis fazer-lhes bem; mas a Mim, nem sempre Me tereis. Ela fez o que estava ao seu alcance: ungiu de antemão o meu corpo para a sepultura.
Em verdade vos digo: onde quer que se proclamar o Evangelho, pelo mundo inteiro, dir-se-á também em sua memória, o que ela fez”.
Então, Judas Iscariotes, um dos Doze, foi ter com os príncipes dos sacerdotes para lhes entregar Jesus.
Quando o ouviram, alegraram-se e prometeram dar-lhe dinheiro. E ele procurava uma oportunidade para entregar Jesus.
No primeiro dia dos Ázimos, em que se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntaram a Jesus: “onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?”
Jesus enviou dois discípulos e disse-lhes: “ide à cidade. Virá ao vosso encontro um homem com uma bilha de água. Segui-o e, onde ele entrar, dizei ao dono da casa: ‘o Mestre pergunta: Onde está a sala, em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?’ Ele vos mostrará uma grande sala no andar superior,
alcatifada e pronta. Preparai-nos lá o que é preciso”.
Os discípulos partiram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito e prepararam a Páscoa. Ao cair da tarde, chegou Jesus com os Doze.
Enquanto estavam à mesa e comiam, Jesus disse: “em verdade vos digo; um de vós, que está comigo à mesa, há de entregar-Me”.
Eles começaram a entristecer-se e a dizer um após outro: “serei eu?”
Jesus respondeu-lhes: “é um dos Doze, que mete comigo a mão no prato. O Filho do homem vai partir,
como está escrito a seu respeito, mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser traído! Teria sido melhor para esse homem não ter nascido”.
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: “tomai: isto é o meu Corpo”.
Depois tomou um cálice, deu graças e entregou-o. E todos beberam dele.
Disse Jesus: “este é o meu Sangue, o Sangue da nova aliança, derramado pela multidão dos homens.
Em verdade vos digo; não voltarei a beber do fruto da videira, até ao dia em que beberei do vinho novo no reino de Deus”.
Cantaram os salmos e saíram para o Monte das Oliveiras.
Disse-lhes Jesus: “todos vós Me abandonareis, como está escrito, ‘ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas’. Mas depois de ressuscitar, irei à vossa frente para a Galileia”.
Disse-Lhe Pedro: “embora todos te abandonem, eu não”.
Jesus respondeu-lhe: “em verdade te digo. hoje, esta mesma noite, antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás”.
Mas Pedro continuava a insistir: “ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei”.
E todos afirmaram o mesmo. Entretanto, chegaram a uma propriedade chamada Getsémani e Jesus disse aos seus discípulos: “ficai aqui, enquanto Eu vou orar”. Tomou consigo Pedro, Tiago e João e começou a sentir pavor e angústia.
Disse-lhes então: “a minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai”.
Adiantando-Se um pouco, caiu por terra e orou para que, se fosse possível, se afastasse d’Ele aquela hora.
Jesus dizia: “Abba, Pai, tudo Te é possível; afasta de Mim este cálice. Contudo, não se faça o que Eu quero,
mas o que Tu queres”.
Depois, foi ter com os discípulos, encontrando-os dormindo e disse a Pedro: “Simão, estás a dormir? Não pudeste vigiar uma hora? Vigiai e orai, para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
Afastou-Se de novo e orou, dizendo as mesmas palavras. Voltou novamente e encontrou-os dormindo, porque tinham os olhos pesados e não sabiam que responder.
Jesus voltou pela terceira vez e disse-lhes: “dormi agora e descansai… Chegou a hora. O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos pecadores. Levantai-vos. Vamos. Já se aproxima aquele que Me vai entregar”.
Ainda Jesus estava a falar, quando apareceu Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes, pelos escribas e os anciãos.
O traidor tinha-lhes dado este sinal: “aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O e levai-O bem seguro”.
Logo que chegou, aproximou-se de Jesus e beijou-O, dizendo: “mestre”.
Então puseram-Lhe as mãos e O prenderam.
Um dos presentes puxou da espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha.
Jesus tomou a palavra e disse-lhes: “vós saístes com espadas e varapaus para Me prender, como se fosse um salteador. Todos os dias, Eu estava no meio de vós, ensinando no templo, e não Me prendestes! Mas é para se cumprirem as Escrituras”.
Então os discípulos deixaram-No e fugiram todos. Seguiu-O um jovem, envolto apenas num lençol. Agarraram-no, mas ele, largando o lençol, fugiu nu. Levaram então Jesus à presença do sumo sacerdote, onde se reuniram todos os príncipes dos sacerdotes, os anciãos e os escribas.
Pedro, que O seguira de longe, até ao interior do palácio do sumo sacerdote, estava sentado com os guardas, a aquecer-se na fogueira.
Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus para Lhe dar a morte, mas não o encontravam. Muitos testemunhavam falsamente contra Ele, mas os seus depoimentos não eram concordes.
Levantaram-se então alguns, para proferir contra Ele este falso testemunho: “ouvimo-Lo dizer ‘destruirei este templo feito pelos homens e em três dias construirei outro que não será feito pelos homens’”. Mas nem assim o depoimento deles era concorde.
Então o sumo sacerdote levantou-se no meio de todos e perguntou a Jesus: “não respondes nada ao que eles depõem contra Ti?” Mas Jesus continuava calado e nada respondeu.
O sumo sacerdote voltou a interrogá-Lo: “és Tu o Messias, Filho do Deus Bendito?”
Jesus respondeu: “Eu Sou. E vós vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso vir sobre as nuvens do céu”.
O sumo sacerdote rasgou as vestes e disse: “que necessidade temos ainda de testemunhas? Ouvistes a blasfémia. Que vos parece?”
Todos sentenciaram que Jesus era réu de morte. Depois, alguns começaram a cuspir-Lhe, a tapar-Lhe o rosto com um véu e a dar-Lhe punhadas, dizendo: “adivinha».
E os guardas davam-Lhe bofetadas.
Pedro estava em baixo, no pátio, quando chegou uma das criadas do sumo sacerdote. Ao vê-lo a aquecer-se, olhou-o de frente e disse-lhe: “tu também estavas com Jesus, o Nazareno”.
Mas ele negou: “não sei nem entendo o que dizes”.
Depois saiu para o vestíbulo e o galo cantou. A criada, vendo-o de novo, começou a dizer aos presentes:
“este é um deles”. Mas ele negou segunda vez. Pouco depois, os presentes diziam também a Pedro: “na verdade, tu és deles, pois também és galileu”. Mas ele começou a dizer imprecações e a jurar: “não conheço esse homem de quem falais”. E logo o galo cantou pela segunda vez.
Então Pedro lembrou-se do que Jesus lhe tinha dito: “antes do galo cantar duas vezes, três vezes Me negarás”. E desatou a chorar.
Logo de manhã, os príncipes dos sacerdotes reuniram-se em conselho, com os anciãos e os escribas e todo o Sinédrio. Depois de terem manietado Jesus, foram entregá-Lo a Pilatos.
Pilatos perguntou-Lhe: “tu és o Rei dos judeus?”
Jesus respondeu: “é como dizes».
E os príncipes dos sacerdotes faziam muitas acusações contra Ele.
Pilatos interrogou-O de novo: “não respondes nada? Vê de quantas coisas Te acusam».
Mas Jesus nada respondeu, de modo que Pilatos estava admirado.
Pela festa da Páscoa, Pilatos costumava soltar-lhes um preso à sua escolha. Havia um, chamado Barrabás, preso com os insurrectos, que numa revolta tinham cometido um assassínio.
A multidão, subindo, começou a pedir o que era costume conceder-lhes.
Pilatos respondeu: “quereis que vos solte o Rei dos judeus?” Ele sabia que os príncipes dos sacerdotes
O tinham entregado por inveja. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que lhes soltasse antes Barrabás. Pilatos, tomando de novo a palavra, perguntou-lhes: “então, que hei de fazer d’Aquele que chamais o Rei dos judeus?”
Eles gritaram de novo: “crucifica-O!».
Pilatos insistiu: “que mal fez Ele?”
Mas eles gritaram ainda mais: “crucifica-O!”.
Então Pilatos, querendo contentar a multidão, soltou-lhes Barrabás e, depois de ter mandado açoitar Jesus,
entregou-O para ser crucificado. Os soldados levaram-No para dentro do palácio, que era o pretório, e convocaram toda a coorte. Revestiram-No com um mando de púrpura e puseram-Lhe na cabeça uma coroa de espinhos que haviam tecido. Depois começaram a saudá-Lo: “salve, Rei dos judeus!” Batiam-lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-Lhe e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante d’Ele. Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto de púrpura e vestiram-Lhe as suas roupas. Em seguida levaram-No dali para O crucificarem. Requisitaram, para Lhe levar a cruz, um homem que passava, vindo do campo, Simão de Cirene, pai de Alexandre e Rufo. E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, quer dizer, lugar do Calvário. Queriam dar-Lhe vinho misturado com mirra, mas Ele não o quis beber. Depois crucificaram-No. E repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para verem o que levaria cada um.
Eram nove horas da manhã quando O crucificaram. O letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: “Rei dos Judeus”. Crucificaram com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda.
Os que passavam insultavam-No e abanavam a cabeça, dizendo: “tu que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo e desce da cruz”.
Os príncipes dos sacerdotes e os escribas troçavam uns com os outros, dizendo: “salvou os outros e não pode salvar-se a Si mesmo! Esse Messias, o Rei de Israel, desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos”. Até os que estavam crucificados com ele o injuriavam.
Quando chegou o meio-dia, as trevas envolveram toda a terra até às três horas da tarde. E às três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: “Eloí, Eloí, lamá sabachtháni?”, que quer dizer: “meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?”
Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram: está chamando por Elias”.
Alguém correu a embeber uma esponja em vinagre e, pondo-a na ponta duma cana, deu-Lhe a beber e disse: “deixa ver se Elias vem tirá-Lo dali”.
Então Jesus, soltando um grande brado, expirou.
O véu do templo rasgou-se em duas partes de alto a baixo. O centurião que estava em frente de Jesus, ao vê-Lo expirar daquela maneira, exclamou: “na verdade, este homem era Filho de Deus”.
Estavam também ali umas mulheres a observar de longe, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e Salomé, que acompanhavam e serviam Jesus, quando estava na Galileia, e muitas outras que tinham subido com ele a Jerusalém.
Ao cair da tarde – visto ser a Preparação, isto é, a véspera do sábado – José de Arimateia, ilustre membro do Sinédrio, que também esperava o reino de Deus, foi corajosamente à presença de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus.
Pilatos ficou admirado de Ele já estar morto e, mandando chamar o centurião, ordenou que o corpo fosse entregue e José. José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; depois depositou-O num sepulcro escavado na rocha e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro.
Entretanto, Maria Madalena e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus tinha sido depositado.
Reflexão Vicentina
O Evangelho desta semana resume o mistério da paixão e morte de Jesus e, por isso, é rico em todos os seus versículos. Tem especial lugar, no entanto, o desapego de Jesus de si mesmo e do mundo, o qual mudou definitivamente a história da humanidade. Estamos acostumados a achar que quanto mais ansiosamente nos apegamos a nós mesmos, aos que amamos, aos problemas e às coisas, mais resultados temos para a nossa felicidade e para a felicidade dos que amamos. Durante a Quaresma e na celebração de Sua Paixão e Morte, Jesus vem colocar em prática uma outra forma de amar: quanto mais nos esvaziamos de nós mesmos, mais Deus preenche a nossa vida e realiza o que é necessário para nós.
Desapegar-nos de nós mesmos, dos outros, dos problemas e das coisas pode ser um instrumento de enorme efetividade e, muitas vezes, é muito necessário. Jesus tomou quarenta dias no deserto fazendo jejum, antes de começar o que seria a sua importante missão. Paulo esteve três dias cego, longe do caminho a Damasco e da missão a que se propôs, para descobrir um novo caminho. Muitos santos, como Santa Teresa d´Ávila, São João da Cruz e Santa Teresa de Calcutá, se distanciaram da missão, passando pelas famosas “noites escuras” e tirando delas a energia para realizarem melhor a própria missão.
O desapego pode ser uma forma muito salutar de entender-nos melhor e sair em busca de novas formas de viver em paz; de fato, ele nos aproxima de Deus, porque passamos a entender que Ele está dentro de nós. O desapego amoroso pode melhorar significativamente nosso relacionamento com os outros. Conheci muitos que se mudaram por um tempo da cidade onde estavam e o relacionamento com os que continuaram no mesmo lugar melhorou muito. Conheci pais que, ao se “desapegarem amorosamente” de seus filhos, puderam fazer com que eles se desenvolvessem muito mais do que “sufocando-os” ou superprotegendo-os.
O desapego é comprovadamente efetivo para resolver problemas. Obviamente, só conseguimos deixar de colocar excessiva emoção sobre a forma como analisamos problemas se nos distanciarmos deles, sendo uma espécie de “autoconselheiros”. Quantas vezes transformamos situações simples em enormes problemas, porque não damos a devida distância delas, pondo-as no devido lugar e no devido tamanho!
O desapego material pode nos levar a ser mais felizes e, eventualmente, mais ricos. Quantas vezes nos apegamos tanto ao que temos ou à mesquinhez do pouco, e deixamos passar oportunidades de extrair mais valor do que fazemos! Quantas vezes escutamos biografias de gente que passou a vida inteira tão ocupada com o material que se esqueceu de amar a si e os outros.
O desapego permite amar mais a nós e amar os outros de igual forma. Jesus nos diz que existe um único mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas e amar o outro como a si mesmo. Não podemos amar o outro sem amar a Deus mais do que a nós mesmos e sem amar a nós mesmos.
O carisma vicentino nos ajuda a nos desapegar de nós mesmos, dos outros, dos problemas e das coisas. A mística do encontro com o Pobre nos faz dar medida certa aos nossos problemas, aos problemas que temos com os outros e às coisas. Ozanam costumava dizer que “o melhor meio de julgar os assuntos da vida é utilizar a calma e o desapego, olhando os problemas do alto, como se fossem distantes”.
Aproveitemos esta semana para refletir como podemos em casa, no trabalho, na vida social e na SSVP, exercitar o “esvaziar-se de nós mesmos e deixar-se encher pela presença amorosa de Cristo”, que foi o exemplo de quem se deixou humilhar e morrer na Cruz para que nós pudéssemos ter vida, e vida em plenitude.
Confrade Eduardo Marques