A Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) tem em suas reuniões um momento especial de partilha e solidariedade: a coleta. Esse ato, conduzido pelo(a) tesoureiro(a), ocorre mais para o final dos encontros, conforme estabelece o parágrafo VIII do artigo 131 da Regra da SSVP. Trata-se de uma doação pessoal e secreta feita pelos vicentinos, simbolizando o testemunho da partilha cristã.
O valor arrecadado tem a finalidade de atender às necessidades dos assistidos e cobrir outras despesas correntes, conforme previsto no parágrafo IX do artigo 118 da Regra. Essa tradição reforça o compromisso com os mais necessitados, incentivando a solidariedade e o desapego material.
Na área do Conselho Central de Santo Antônio do Monte, a pequena Maria Júlia se destaca por sua participação ativa nesse momento, auxiliando o tesoureiro ao passar a sacolinha para as arrecadações. Esse gesto simboliza a transmissão dos valores vicentinos às novas gerações, garantindo a continuidade dessa obra de caridade.
A coleta nas reuniões vicentinas também teve a participação de uma figura ilustre da literatura brasileira: o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Ele, que foi vicentino, ajudava a recolher as doações em reuniões e chegou a registrar essa experiência em um de seus poemas.
No poema "Os Pobres", publicado na obra "Boitempo", Drummond reflete sobre a condição dos necessitados e a importância da partilha:
(...) Mas que sei da vida dos Pobres
senão que vivem sempre sempre
como a água, a pedra, o costume?
Se São Vicente manda ver no rosto
Deles o de Cristo, o que vejo é a comum pobreza resignada, consentida,
Tão natural como sinal na pele.
Dou a *esmola.
Não salvo o mundo,
Mas me salvo.
*Antigamente, a coleta era conhecida como esmola.
Este trecho traduz o espírito vicentino, evidenciando que, embora uma doação não transforme o mundo de imediato, ela tem o poder de transformar quem a realiza. A coleta, portanto, vai além do aspecto financeiro: é um gesto de empatia, compaixão e compromisso com o próximo.